A OBRA COMO SINTOMA
Esse texto é fruto de um convite, um texto-convite surgido do contato com as obras e a boa conversa com o artista Jeff Barbato. Não sou crítico de arte, logo não porto o discurso da competência artística e seus domínios. Falo por meio do testemunho. Meu propósito é expor um dizer a partir de uma experiência iluminadora em relação ao fazer artístico; é tentar com palavras descrever o sempre esguio da concretude vivencial. Portanto, tudo o que digo é a partir de um despertar afetuoso de um impacto, um acontecimento singular proporcionado por um artista e por uma obra de arte.
Essa consideração inicial ajuda-me a propor e a defender a perspectiva do testemunho como resistência, uma forma de resistir ao influxo daquilo que é considerado como texto competente, refiro-me aos textos-artigos-teses recheados de ABNT. A tentativa aqui é antes evitar o catálogo do dito e do redito conceitual presente nas instituições do saber. Gostaria de falar com o corpo e não com a régua. Desejo, acima de tudo, não exorcizar a emoção. Esse meu pequeno relato é a sua aposta.
Foi em um dia qualquer, comendo um lanche prosaico e conversando com Barbato. Quando em uma noite de céu claro numa praça onde corriam infantes ao fundo ouvi Barbato falar do Barbato-criança e narrar-me as suas dores, pude ligá-las ao seu projeto artístico. Compreendi a necessidade de a obra de arte portar um sintoma, uma questão, uma causa, um mal-estar habitante do nosso sempre presente-passado-infância. Essa constatação não veio sem a surpresa de um susto, porque os artistas têm disso, de nos desmascarar e tirar-nos as calças em público, de fazer nossas certezas cederem e abalarem. Até então alimentava sentimentos pueris sobre o fazer artístico, via os artistas como verdadeiros artífices de mundos, feito mágicos cujos coelhos saem da cartola sem o menor grau de risco e exposição. Acreditava que os artistas se inventavam ex-nihilo.
Percebi assustado, ao final da noite, a minha própria farsa, pois eu fui uma tentativa artística com fé cartesiana em criar mundos estando ausente, nunca me colocando em questão. Dei-me conta de que o artista está sempre em causa, sua ferida não cessa de fluir, seu córrego nunca é estanque e unidirecional, mas abarcador.
A série in | teiros causa-me essa impressão. Assim como ela, gostaria de pensar que estamos todos suspensos em nossas fendas. Quando digo suspenso, digo: somos sustentados por ela, mesmo escondendo-a e enfeitando-a com cores e roupas de grife. O rasgo e a costura em simbiose são as formas de Barbato dizer-nos a respeito da poética dessa fenda. Não há nada nessa obra de apaziguado ou estabilizado; a ordem e o uniforme estão ausentes. Porque é a partir um de rombo que os artistas escrevem, compõem, fotografam, esculpem, pintam, atuam e falam. É O grito o grande narrador de Munch. A noite estrelada conta-me sobre um Van Gogh ausente dos manuais. As vicissitudes de suas vidas podem nos fascinar, mas limitam-se ao dizível e ao explicável. A grande obra de arte necessariamente distorce a ordem do mundo, rasga essa veste ilusória chamada homem estabilizado (“Quando a fenda abre, quando a cratera aparece, o homem uniformizado cessa”, Juliano Garcia Pessanha¹).
O buraco nunca se fecha no artista, é possível, todavia, estabilizar os significados com as suturas do cotidiano banal. O mundo instituído odeia a desordem espatifada, sopra para longe o rombo, deseja em seu lugar a infinita rigidez requentada e morna. Quando confrontado com a obra de Barbato, tudo o que vi foi essa costura falsa sobre a carapaça de nossa superfície. Sua obra é a ferida exposta daquilo que tentamos desesperadamente empurramos para o debaixo do tapete na tentativa de nos mantermos intactos.
O artista, esse desestabilizador de nosso cotidiano, é aquele provido de um sintoma sugador de todo o seu ser, sintoma este que ele não sabe dizer sem um silêncio perturbador, não porque não possa dizê-lo, mas por não poder pô-lo na ordem das palavras cotidianas. A forma de fazê-lo será somente de maneira fragmentada e entrecortada. Henri Michaux² escreve sobre um vento terrível vindo do “pequeno buraco” do seu peito . É esse pequeno buraco, essa cicatriz aberta, essa fissura, o perpétuo motor da possibilidade de existência da obra de arte.
__________
1. — PESSANHA, J. G. “Heidegger e a velha: falar e não falar sobre A origem da obra de arte”. In: Testemunho transiente. São Paulo: Cosac Naify, 2015, p. 267.
2. — “Sopra um vento terrível. / É apenas um pequeno buraco no meu peito”. (MICHAUX, H. “Nasci esburacado”. In: Antologia. Lisboa: Relógio d’ Água, 1999, pp. 34-36).
por Danilo Nakashima, 2018
exposição in | teiros

