A linha que nos une é a mesma que nos separa
Na arte, a linha pode ser compreendida como a desconstrução da forma para seu elemento mais básico e essencial. Ora enfatizada como na corrente minimalista, ora despercebida, a linha, no entanto, sempre esteve presente na discussão do campo da arte, como um elemento conceitual ou não, sendo que ao longo da História da Arte, artistas trabalham inscritos dentro de uma longa tradição, ao mesmo tempo em que, contemporaneamente, utilizam dessa prática para trazê-la dentro de novas injunções, concepções e abordagens. É este o caso das abordagens do conjunto de trabalhos apresentados por Jeff Barbato para o 33° Programa de Exposições do Centro Cultural São Paulo.
Em sua pesquisa artística, Barbato construiu um repertório discursivo que remete à infância e às memórias trazidas do ambiente familiar, sendo reprocessados como objetos poéticos. E tomo essa informação como base, pois ela é importante para compreender o ponto de partida e as caminhadas trilhadas pelo artista para a composição de “Uma Inesgotável Escavação”, conjunto de cinco trabalhos que compõem a sala expositiva de Barbato.
Na obra do artista, a linha opera como uma metáfora para as fissuras internas e externas que perpassam vivências pessoais do artista. Nascido com lábio leporino, essa fissura oral-labial foi o primeiro contato do artista com o distanciamento e exclusão social causados por pré-conceitos advindos não somente da desinformação, mas por preconceitos que cercam toda e qualquer pessoa que foge um marcador de norma e padrão. Nesse aspecto, para construção de sua exposição individual, Barbato recorreu, primeiramente, às fraturas internas causadas por esses processos de violência subjetiva.
Embora essas incursões pessoais sejam a base para a pesquisa de Barbato, há outros aspectos de suas vivências e experiências que somam uma carga simbólica para sua apresentação no Centro Cultural São Paulo. Assim como o artista identifica uma proximidade com o menino Rouxinol, personagem que faz parte de um dos Contos do livro Histórias de Leves Enganos e Parecenças, de Conceição Evaristo, há mais proximidade entre Uma Inesgotável Escavação e o livro do que, talvez, Barbato posse imaginar.
No prefácio de Histórias de leves enganos e parecenças, a doutora em Literatura de Línguas Portuguesas Assunção de Maria Souza e Silva escreve que “a relação de poder que subjuga as classes subalternas e sustenta o força social aparece nas narrativas como fator determinante das deficiências das estruturas históricas e sociais. Conceição Evaristo nos põe em um lugar inquietante e desafiador, como se clamasse para uma leitura não passiva, nem pacífica. O que se conta através do figurativo, do alegórico e do simbólico, engendra-se a partir dos fatos e de suas consequências históricas, que incidem na vida cotidiana, onde pobres – negros e não negros, despertos em suas masculinidades e feminilidades -, rompem com o prestabelecido, revelando nos ‘líquidos’ dos corpos a veia da resistência”.
Assim são os trabalhos apresentados por Barbato, uma reunião de assuntos que buscam romper com o preestabelecido para discutir o lugar daquilo que ainda busca seu espaço de liberdade, seja na vida ou no próprio campo da arte. Ao identificar tais fissuras, o artista passa a reivindicar, a partir de sua prática e linguagem artística, um lugar de ressignificado para elas.
É preciso enxergar onde dói, para assim buscar a cura.
E assim, retoma as linhas como metáfora da resistência que Barbato encontra para revelar aquilo que precisa ser curado. Utilizando do concreto como base para construção da maioria das peças que compõem amostra, a rigidez da materialidade se contrapõe a fragilidade das linhas que denotam aspectos de uma imposição em nome de um progresso mas que precisam ser revistas para que haja um futuro mais promissor e humano ponto final ao trazer à tona uma herança histórica pessoal, marcada por dominações concretas e simbólicas, Barbato nos faz refletir que é preciso ressignificar questões internas, fazendo emergir outras experiências e novos contextos.
CAROLLINA LAURIANO
Teórica convidada em ocasião ao 33° Programa de Exposições do Centro Cultural São Paulo [CCSP], maio de 2024.

