ZONAS DE SOMBRA – O reto e o orgânico: discussões sobre a ideologia da linha.
O pensamento ocidental, ao longo de sua história, estabeleceu um antagonismo entre os elementos da natureza e os da cultura. Diante de uma postura de dominação em relação à paisagem, o Homem ocidental impôs sua forma – moderna e reta – de modo a superar os movimentos caóticos e imprevisíveis do universo. Por outro lado, podemos observar como outros povos se relacionam com a paisagem. Muitas culturas indígenas, por exemplo, interagem com a paisagem de forma horizontal, dialogando com os fluxos da natureza: marés, temperatura, umidade, movimentos da flora e fauna, etc.
Esse contraste entre formas retas da modernidade e as formas orgânicas da natureza reflete não apenas uma diferença estética, mas também uma diferença em sua densidade subjetiva. As formas retas tradicionais da cultura branca ocidental estão ligadas a uma mentalidade patriarcal e violenta, da qual impõe sua ordem e controle sobre o Outro. Essas linhas retas são expressões de poder e dominação, uma tentativa de subjugar e moldar a natureza de acordo com a sua vontade. Podemos observar sua presença, por exemplo, nas obras de Marília Scarabello, onde a compactação de terra em Uma porção de terra #2 (2023) representa um código de barras (referente ao carnê de IPTU) que indica o quanto optamos por explorar a terra em vez de cultivá-la, agindo como grandes extrativistas interessados exclusivamente no seu valor monetário.
Temática também recorrente na série de Caró, intitulada Vende-se (2020). Nela, o artista se apropria de placas imobiliárias e realiza intervenções de desenhos de vegetação sobre elas. A proposta é refletir sobre os espaços de especulação imobiliária, que por questões financeiras permanecem em ruínas por conta da ausência de interesse de compra. A situação, são argumentos e discussões de extrema importância, sobretudo no Brasil, no que tange os movimentos de reforma agrária e de ocupações da luta por moradia nos centros urbanos. As imagens apresentadas por Caró são contrastantes. Mostram o simbolismo da especulação capital do território contida nas placas de “aluga-se” ou “vende-se” nos imóveis e terrenos, com os “matos” que nascem nas frestas das ruínas abandonadas e nos espaços baldios.
No trabalho, Formação/De-formação (2022) de Jeff Barbato, podemos relacionar o corpo como território, perspectiva presente em muitas culturas originárias. Nesses desenhos, observamos o processo de deformação de um embrião, e ao relacionar o corpo com o espaço, passamos a questionar a forma como sociedade objetifica, seleciona, controla espaços e corpos para que sejam aceitos em seus padrões pré definidos dentro de uma lógica patriarcal e produtivista. Este controle também é aparente na série Você poderia por favor não me encarar dessa forma (2021) de Nathalia Favaro. Nela, temos uma gravura em que representa um corte longitudinal do tronco de uma árvore e linhas ortogonais retas que indicam as formas que as madeiras terão para sua comercialização. Dessa forma, as linhas têm como estratégia garantir o máximo de produtividade e mais valia para sua comercialização.
Fica evidente nesses trabalhos o modo como a linha reta traz uma lógica de dominação territorial, patriarcal e capitalista. Por outro lado, as formas orgânicas presentes na natureza representam uma relação de alteridade e dialógica. Elas reconhecem a diversidade e a interconexão de todos os seres vivos, respeitando a autonomia e a liberdade de cada um. As linhas orgânicas não buscam impor uma ordem rígida, mas se adaptam harmonicamente ao ambiente, criando espaços fluidos e acolhedores. Em Intervalo (2019), de Nathalia Favaro, temos um vídeo que mostra a artista na floresta amazônica, tentando registrar as formas das árvores e plantas por meio de suas sombras realizadas por meio de raios de sol que adentram na mata e tocam uma folha em branco de formato A4. Favaro realiza uma espécie de anti-fotografia, ao não registrar permanentemente uma imagem pela luz, mas captando – mesmo que em instantes – as sombras dos seres vegetais da floresta.
Embora o antagonismo possa funcionar de maneira resumida, as relações entre cultura e natureza são muito mais complexas e borradas. Em certa medida, existe uma zona ambígua em que ambos elementos se interseccionam. Na série Uma inesgotável escavação (2023), de Jeff Barbato, o artista representa, através do aço oxidado, o desenho do Ribeirão dos Meninos e do Ribeirão dos Couros – ambos rios localizados na cidade de São Bernardo e que estão completamente soterrados pelo concreto da cidade. Em Terra Rasgada (2022-23), o mesmo material e técnica são utilizados, mas a linha deixa de representar o rio e passa a designar as linhas das ferrovias sorocabanas. Dessa forma, Jeff Barbato coloca lado a lado o rio e a estrada como duas importantes tecnologias da humanidade: natureza e cultura sendo localizadas de maneira horizontal.
Algo semelhante pode ser constatado nas produções de Ginna Jorge. Em Corpobioma (2019-20) a artista apresenta uma sequência de quatro fotografias em que visualizamos um corpo vermelho deitado compondo junto com rochas. Por mais que o vermelho faça o corpo saltar para frente do nosso olhar, existe nesta composição – além da planaridade imagética – uma horizontalidade entre figura humana e “paisagem”, como se a forma humana subjetivasse a rocha e vice-versa. As possibilidades de reflexões adquirem mais camadas ao percorrer por outro trabalho da mesma artista intitulado Artefato para ouvir o murmúrio das pedras: Murmúrios do quartzo rosa (2019-20). Trata-se de um áudio realizado a partir de captação das texturas de um quartzo rosa, por meio de um piezoelétrico e posteriormente, sintetizadas e editadas digitalmente. A proposta é constituir diálogos e escutas não-humanas de minerais e discutir as formas como podemos desconstruir as perspectivas antropocêntricas da nossa sociedade patriarcal. Ginna Jorge consegue propor outras perspectivas de subjetividades não hegemônicas com a natureza, e além disso, insere a tecnologia como aliada para realização de coalizões entre seres. Natureza, cultura e tecnologia, são substantivos, que aqui não fazem mais sentido: intersecção entre linhas orgânicas e retas.
Se os trabalhos da artista indicam possibilidades de diálogos com seres não-humanos, mais especificamente com os minerais, Higo José traz uma série de produções de bordado, em que a linha orgânica representa figuras associadas às pinturas rupestres. A ausência de perspectiva, pontua o plano bidimensional ausente de hierarquias (em cima, embaixo, primeiro, segundo, etc.), dessa forma, o que temos são povoamentos de ícones bordados que podem representar tanto animais quanto formas humanas e/ou vegetais. Em Onça de Chiribiquete (2022), temos como figura central da imagem, a onça rodeada por outros animais. Tanto a composição, como a forma de representação atribui para o animal, uma subjetividade da qual podemos relacionar com as noções de perspectivismo elaboradas pelo antropólogo Eduardo Viveiros de Castro. Nela, o antropólogo argumenta a horizontalidade entre seres a partir da perspectiva indígena, de modo que todo animal, carrega uma “humanidade”.
As linhas orgânicas, são contraprodutivas, não são econômicas justamente por variarem a trajetória entre dois pontos. Elas são deslizantes e não confiáveis por sua imprevisibilidade. Porém, ela possui uma energia negativa, fagocitante e acolhedora. Trata-se de movimento de alteridade, onde se preocupa menos em direcionar e atuar, do que ouvir e receber. Sua ação deriva sempre de uma resposta a outra, de modo que se torna um eterno diálogo. Dessa forma, as linhas orgânicas discordam da monocultura, pois dentro de sua perspectiva, a diversidade é um caminho que amplifica as possibilidades de diálogos, e de potência criativa. A filósofa e ativista indiana, Vandana Shiva, discorre sobre a metáfora da monocultura não se tratar apenas de um fenômeno agrícola, mas se expande para as nossas relações pessoais, uma “monocultura da mente”. Se quisermos permanecer de maneira saudável neste universo, é preciso ouvir e obter colaborações com outros seres, abdicar da monocultura e aceitar a diversidade – que possamos permear o nosso cotidiano e perspectiva com um pouco mais de linhas orgânicas.
ALLAN YZUMIZAWA
Curador convidado, junho de 2023

