jeff barbato

jeff barbato | artista visual

DEMONSTRA

“Meu corpo não é meu corpo, é ilusão de outro ser”
Carlos Drummond de Andrade

 Com práticas e pesquisas se ocupando do corpo que rompe com as formas de normatização para projetar lugares novos de subjetivação e experiência estética, o Projeto Demonstra entende que compartilhar conhecimentos e poéticas é essencial. O corpo não normativo é objeto de discussão na obra de seis artistas que ampliaram, durante a primeira edição da Residência Artística Demonstra-Poéticas Informes, a experimentação, conferindo à criação uma nova proposta. O corpo não é o suporte da arte, mas é sim a total incorporação do corpo na obra e da obra no corpo.
Foram quatro meses de trocas e descobertas. De entendimentos e quebra de barreiras. De inclusão e de acessibilidade a lugares nem sempre facilmente acessíveis. Momentos em que foram questionadas narrativas pessoais e sociais. Como olhar para o corpo deficiente e entender a poética de cada um? Como aproximar o público quando a distância entre artista e observador precisa ser diminuída para que a obra se realize? Não basta ao artista o poder criador e a inteligência, mas que seja um ser social, modificador também de consciências, transformador revolucionário. É preciso que participe de sua época, seu momento, seu lugar no universo. Mais que tudo é o encontro do corpo do indivíduo com o corpo social quando o processo é mais relevante do que o objeto finalizado.
Como o final é também início, começa agora, para esses artistas, uma caminhada ambiciosa. Porque o corpo é caminho. É preciso levar essa afirmação, impregnada de potência, para divulgar um ideal. Que o corpo com deficiências seja, sim, um símbolo de lutas, de vitórias sobre preconceitos e exclusões. Não importam as faltas, as rachaduras, as ausências, as dores. As cicatrizes ficarão para lembrar a superação. E sempre será possível transmitir significados por meio da produção poética.

 Se o corpo é tanto alvo de poder como ator principal de todas as utopias, como nos diz Michel Foucault, para Barbato ele é alvo de questionamentos e percepções. As imperfeições e incompletudes o levam constantemente a lugares bastante iluminados, pois de cada fissura escapa a luz, de cada rasgo crescem possibilidades. O menino da boca rachada, “tão sem boca, tão sem lábios, tão sem fala compreensível” cresceu na procura de outras maneiras de perceber as transformações, de conviver com a diferença e fazer dela uma busca por respeito e acolhimento. As palavras de Conceição Evaristo tocaram fundo em sua necessidade de deixar vir à tona toda a dor interna. Sua poética nasce do corpo, mas caminha por veredas mais complexas. Como rios que separam terras e raios que abrem fendas, a obra de Barbato busca mapear estruturas rachadas. Permeando seus múltiplos trabalhos encontramos a narrativa pessoal trazendo a simbologia do corpo com fissura, o estigma desses corpos marcados pela discriminação e preconceitos. “Busco associações entre corpos dissidentes e as mutações do espaço, as transformações e diversidades da natureza” diz Barbato em suas pesquisas e propostas de trabalho. Em Formação-Deformação, vídeo de 36 segundos, explora a animação para levantar a questão da padronização da formação humana. A quebra do padrão estético ideal é a intenção de Jeff ao transferir as diversas imagens em loop. Suas pesquisas continuam em suportes diversos, buscando as rachaduras impostas ao caminhar, as fendas deixadas por imperfeições que nunca definem, mas sim amplificam. O olhar atento e amoroso encontra a carne viva por trás da cicatriz. E cuida.

Isabel Sanson Portella
Crítica e Curadora da Residência Demonstra
maio de 2022

acesse o texto e exposição a demonstra.