jeff barbato

jeff barbato | artista visual

O VAZIO ABARCADO

“Pensar requer um espaço entre no qual possam circular forças de corpos animados.”
Heinrich von Kleist

 Aline Moreno e Jeff Barbato ocupam o Museu da Cidade, na Casa de Vidro – no Lago do Café, em Campinas – com obras que compartilham uma poética visual similar. Ambos apresentam trabalhos que se situam entre o bi e o tridimensional, entre o objeto, a escultura, a fotografia e relevos que se projetam da parede, do chão e do espaço. A própria espacialidade do local, que insere o exterior no interior, e vice-versa, serve de abrigo para um diálogo no qual as obras exibidas não fecham-se em si mesmas, mas ao contrário, estabelecem uma conversa com o espaço e com a percepção que temos dele. Ambos discutem a representação da natureza, da paisagem por meio de operações poético-visuais que remetem à cartografia. Mas não aquela que entendemos como a representação geométrica plana, simplificada e convencional da superfície terrestre ou de parte dela. Eles, de certa maneira, exibem – cada um ao seu modo – um trompe l’oeil, expressão francesa e um recurso técnico-artístico empregado com a finalidade de criar uma ilusão de ótica para “enganar o olho”. Lembro de uma frase do Italo Calvino: “Quem comanda a narração não é a voz, é o ouvido”; parafraseando o autor italiano, quem comanda a observação não é o olhar, mas o olho. Aline e Jeff nos fazem ver fragmentos, fraturas, formas esvaziadas e cheias, esburacadas, e outras que sustentam, como se essas composições abrissem uma passagem que também é uma paisagem. Uma cartografia em cuja superfície repousa o tempo e suas fissuras. Mas não é só o que está sob e sobre que está em jogo, mas também o entre. As proporções, as distâncias, o equilíbrio, as espessuras, a gravidade, profundidade, a frontalidade e a lateralidade são as ferramentas que os artistas usam de reflexão e representação das coisas e do espaço.

O espaço mnemônico | Não é à toa que, segundo o filósofo francês Merleau-Ponty (1908-1961), “o espaço não é um ambiente (real ou lógico) em que as coisas se dispõem, mas o meio pelo qual a posição das coisas se torna possível”. Para ele, e também para Aline e Jeff, o espaço – o lugar – não é algo que se impõe, ao contrário, se constrói a partir da experiência humana. Ele só existe se houver um sujeito, o espectador/observador que o construa. Com o seu olhar e pensamento. O repertório de formas dos artistas, em seus relevos, esculturas e fotografias constituem dispositivos mnemônicos, que se relacionam com a nossa memória. O que vemos são pedaços de uma cartografia afetiva na qual o vazio é abarcado e ilumina zonas de sombras da nossa memória. É uma demonstração topológica que incorpora a imagem, a representação do vazio, da paisagem, da passagem do tempo e suas rasuras na pele das coisas, em uma organização sutil que envolve uma troca de reciprocidades entre a ausência e a presença. Ambos falam também sobre como as formas podem tensionar as relações com o espaço, e como se ao mesmo tempo o redesenhasse. Jeff e suas rachaduras que povoam incompletudes, ao projetar o chão em toda sua frontalidade nas paredes, ou ao elevá-lo sobre o piso existente da Casa de Vidro, o desloca para outro patamar, criando um “palco”, um lugar de suspensão do real. Além de trazer à tona, apontando, direcionando nosso olhar para o chão para a terra, que está usando um pensamento, uma estratégia mais aristotélica do que platônica.

A inteireza das coisas: a pluma e o tijolo | As esculturas e fotografias que Aline exibe carregam por si só um sentido poético, transitório, que ocupa um lugar impreciso no espaço. Como que aliviadas do seu peso, suas colunas carregam a delicada densidade de uma paisagem. Em sua imponente e enigmática escultura central, o branco do gesso que usa denota uma assepsia na escultura criando uma paisagem circular e anônima. Afinal, qual é a paisagem, de onde ela vem e para onde vai? Ela cria uma figuração que traz em si um anonimato e uma “impessoalidade altiva”, expressão que o Rodrigo Naves usou em um ensaio sobre o Antonio Lizárraga. Ambos representam a inteireza das coisas por meio do chão fendido, rachado, trincado, das ranhuras, das junções e interposições, da repetição que se conectam, se ligam. São cavidades, cortes, fendas, interrupções, sulcos, vãos, vazios preenchidos? A superfície que vai além de ser limite, fronteira de algo ou do seu eixo, a axialidade do traçado urbano. Eles mimetizam na Casa de Vidro o ambiente, o entorno, a cidade. Os lugares deslocados do seu local de origem. Aline e Jeff embelezam a opacidade do mundo, o seu azedume, seu pesadume e também sua leveza. Agem como topólogos que vão além da superfície das coisas. Revelam a tensão entre a [des]ordem e o acaso. Há nestes trabalhos uma leveza, aquela que Italo Calvino nos lembra, que a precisão, no antigo Egito, “era simbolizada por uma pluma que servia de peso num dos pratos da balança em que se pesavam as almas”. Essa pluma era chamada de Maat, e seu hieróglifo indicava também a unidade de comprimento, “os 33 cm do tijolo unitário”. O que antes era privado de espessura, a superfície em si, a paisagem, passa a ter profundidade, ganha uma nova representação em obras que abrigam elementos de fratura nos quais a cidade deixa de ser um todo. Eles desconstroem a estrutura tradicional das aparências. Suas obras são representações estéticas do território no qual a geometria euclidiana, das superfícies, é posta em xeque-mate.

Linguagético | O trabalho do artista, do curador e do “crítico” tem algo de linguagético como diz o Georges Didi-Huberman, pois estabelecem uma “articulação dos signos em significantes visuais e significantes verbais e discursivos implícitos que, em última instância, constituem o sentido da imagem”. É como uma visualidade falante. Aline e Jeff apresentam essa visualidade que fala, por intermédio de uma produção sem uma única topologia, é como se a arte fosse, e é, seu próprio lugar. Na verdade, o artista é um grande investigador que (re)cria uma topologia, uma arte que, em si, é seu próprio lugar de dúvida. Talvez o que está em jogo não é propriamente a (des)construção das formas, mas, mais que tudo, a demarcação do espaço, do lugar que suas obras ocupam. O que importa é onde o pensamento, o processo se ancora, não o seu percurso, a sua trajetória. Aqui, Aline e Jeff discutem a consciência de que o resultado final da obra não é o objeto em si, mas é o conjunto de sensações provocadas pelos elementos sólidos, matéricos, pela luz e pelo direcionamento do olhar do espectador que as obras se revelam. Eles revelam o que Robert Morris, artista pioneiro da arte minimalista, afirmava, que a escultura – e o objeto – não poderia mais ser vista como se estivesse separada do espaço, do seu entorno. São operações complementares, uma bem material, formada por elementos físicos, e outra imaterial, na qual abriga – por intermédio representações, imagens, esculturas e objetos – o pensamento e sua [des]construção. Talvez, aqui nesta exposição, Aline Moreno e Jeff Barbato apontem para o que o Paul Virilio, no seu livro “O Espaço Crítico” chama de crise do inteiro, “ou seja, de um espaço substancial, homogêneo, herdado da geometria grega arcaica, em benefício de um espaço acidental, heterogêneo, em que as partes, as frações, novamente tornam-se essenciais”.

Jurandy Valença
Curador convidado | Jurandy Valença é artista, curador, poeta e jornalista. Atualmente é o diretor da Biblioteca Mário de Andrade
maio de 2022